Scooter, irresistível

Pare de olhar torto para os scooters, porque um dia você vai ter um

Tudo começou na Itália depois da Segunda Guerra Mundial, quando tudo estava de pernas pro ar e se tornou necessário criar um veículo simples, fácil de pilotar, mas acima de tudo acessível para a população arrasada financeiramente. A fábrica Piaggio, de Firenze, começou a desenhar o esboço do que viria a ser o veículo certo, a motoneta Vespa, que ganhou este nome por causa da traseira “gorda” que abrigava o motor dois tempos.

Em pouco tempo a pequena motoneta ganhou as ruas da Itália, foi exportada para quase todo o mundo e virou até objeto de desejo de artistas e celebridades. Quando completou 50 anos de existência, em 1996, a Vespa tinha acumulado 15 milhões de unidades vendidas no mundo, sobrevivendo inclusive à concorrência das marcas asiáticas, sobretudo as chinesas.

Mas só quem pilotou uma Vespa de verdade sabe como tecnicamente era um veículo cheio de restrições. Com o motor posicionado de forma assimétrica, tinha-se a clara impressão de que ela rodava enviesada, como um caminhão com o jumelo corrido! Além disso, o câmbio seqüencial na mão esquerda era um calvário, porque tinha de dobrar o punho em ângulos absurdos. Mas havia o salvador estepe preso na lateral, que já me salvou de uma enorme roubada durante um passeio em Santos, nos anos 90.

Se passear de Vespa já era difícil, imagine viajar. Precisava ter uma paciência de Jó e ainda nenhuma pressa, sem falar na fumaceira dos óleos dois tempos de péssima qualidade vendidos naquela época. O motor vibrava muito, mas era tão simples que se consertava facilmente em casa mesmo. Simples e resistente.

Graças a Vespa, o mundo percebeu que havia espaço para um veículo com esta concepção, mas devidamente atualizado. Hoje o scooter inspirado na Vespa é um dos veículos motorizados mais populares do mundo. A partir dos anos 90 pipocaram fábricas de por todo lado, sobretudo na China, que recebeu tecnologia dos japoneses e italianos. Hoje, na China, o scooter virou praticamente um veículo descartável, porque custam pouco, porém duram pouco e formam-se montanhas de sucatas de scooters nos ferros-velho.

As características que deram o maior impulso nas vendas de scooters foi a adoção do câmbio automático, pneus melhores e sem câmara e o compartimento porta-objetos sob o banco. Graças a estas melhorias, as motonetas ganharam praticidade, segurança e versatilidade. Mas ainda esbarrava em uma questão física: as rodas de pequeno diâmetro – geralmente de 10 polegadas – não oferecem muita estabilidade, principalmente no piso irregular.

Na Europa e Ásia as rodas pequenas nem representavam tanto problema, pois as condições de piso são boas e as pessoas se deslocam em pequenas cidades.

Mesmo assim, para contornar a instabilidade com a chegada dos scooters de rodas grandes, de 16 polegadas, como o Yamaha Neo 115, que deu ao veículo um comportamento mais próximo ao das motocicletas. Com isso, há vários anos que os scooters ganharam status de veículos motorizados de duas rodas mais vendido em vários mercados do mundo.

No Brasil, a Suzuki foi a que mais investiu neste segmento, primeiro com a Address 100 e 50 cc e depois com o Burgman 125 com motor quatro tempos. O sucesso desta Suzuki encorajou até a Honda a trazer o modelo Lead 110 que, juntos, já chegaram a 25.000 unidades vendidas de janeiro a outubro. Muito? Nada disso, porque este número representa apenas ¼ do potencial de mercado. Eu ouço periodicamente amigos querendo um scooter para fugir do inferno que se transformou o trânsito, ou mesmo para aquelas situações nas quais tirar um carro da garagem não compensa. É mais ou menos aquela distância longa para ir a pé, mas curta para justificar o movimento do carro de uma tonelada.

Outro dado curioso no mercado brasileiro é que boa parte dos donos de scooter também tem motos. E adotam scooter por questões de praticidade – pequenos deslocamentos no bairro – ou mesmo por segurança, já que ter uma boa moto hoje significa municiar a bandidagem com veículos novos e velozes. Como a segurança pública não tem interesse em reduzir os roubos de motos, a solução é ter um scooter, veículo totalmente desprezado no mercado da criminalidade.

Mas no Brasil ainda enfrentamos um impedimento burocrático. Ao contrário da maioria dos países sensatos, onde existe equivalência entre a habilitação de carro e scooter até 125cc, aqui é necessário fazer moto-escola e tirar habilitação de moto (A) para pilotar scooter. E aí entra mais uma situação típica de Lisarb, este Brasil do avesso. Motos e scooters são veículos totalmente diferentes e as moto-escolas não oferecerem scooters para as aulas. É a mesma coisa que habilitar um piloto de helicóptero para voar de avião, a pretexto de os dois veículos voarem!

Mas ainda tem muita gente que usa o scooter como se fosse moto e isso representa um grande risco. Criado na Europa, onde as ruas – e calçadas – estão literalmente invadidas por scooters, é um veículo para deslocamentos curtos nas pequenas cidades, muita delas da época medieval, com ruas estreitas. Aqui no Brasil, até nas grandes cidades, podem-se ver scooters rodando em avenidas expressas ou mesmo nas estradas, inclusive com garupa, algo que deveria ser evitado e até contra-indicado. Para percursos longos já existem os maxi-scooters como o recém-lançado Dafra Citycom 300, que enfrenta até pequenas viagens.

O dono de scooter pequeno deveria evitar até avenidas de movimento intenso e rápido, pois são veículos pequenos, fáceis de serem ocultados pelos pontos cegos dos carros.  Estrada, então, nem pensar! Tenho um scooter desde 1994 (o mesmo!) e sempre evito as grandes avenidas porque o ideal é rodar sempre acima da velocidade do fluxo e acima de 70 km/h os scooters ficam muito instáveis.

A pilotagem também é diferente. Como o piloto fica sentado e não montado como nas motos, não pode contar com as pernas para ajudar nas irregularidades do piso. Por isso é preciso ficar ainda mais atento ao menor buraco. A distribuição de peso é maior na traseira, isso exige uma atuação maior do freio traseiro nas frenagens. E transportar garupa só mesmo para pequenos trajetos e com critério porque a estabilidade fica ainda mais precária.

Os maxi-scooters representam a geração luxuosa destes veículos. Já existem até scooter de 650cc no mercado, capazes de transportar duas pessoas em viagens, mas são difíceis de usar no trânsito e fogem um pouco do conceito de praticidade. Fiz uma viagem de Suzuki Burgman 400 na Itália e também aqui no Brasil e posso afirmar que ele enfrenta a estrada com conforto e boa velocidade, inclusive com garupa, só não espere muita estabilidade em curvas porque é um show de horror!

O Citycom 300 que a Dafra lançou pode esquentar o mercado neste segmento, principalmente pela relação custo x benefício bem interessante. Ele custa quase a metade do valor de um Burgman 400. Outra novidade que agitou o mercado dos scooters foi a chegada dos modelos de três rodas, como o MP3, que são ainda mais fáceis de pilotar, mas ainda muito caros.

Algumas características agradaram especialmente o público feminino, tais como a facilidade de pilotagem, dimensões reduzidas, câmbio automático e o escudo frontal. Graças a estes detalhes pode-se pilotar até de saia e com sapatos finos. Nas cidades da Europa é comum ver executivos de ternos e mulheres elegantes rodando de scooter, mesmo para eventos sociais.

Com a sustentabilidade em pauta, os scooters também foram apresentados como opção inteligente nas versões elétricas. Esta tecnologia já tem mais de 10 anos de desenvolvimento e com as novas baterias de lítio os veículos 100% elétricos já conseguem boa autonomia e velocidade. Pode ser uma solução para as cidades com restrição aos veículos movidos a combustível. Incluindo São Paulo. No Brasil já existem scooters elétricos em circulação, mas restritos a condomínios ou vigilância em ambientes fechados. Ainda sofrem com a baixa autonomia e pouco desempenho, especialmente nas subidas. Não deverá demorar muito para termos mais destas motonetas “verdes” em circulação.

Grande abraço

Tite
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