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Made in where?

Desde a revolução industrial, lá no século 18, sabe-se que uma fábrica se caracteriza por ser uma unidade na qual entra matéria prima de um lado e sai produto acabado do outro. Entra ferro de um lado e sai sino do outro. Entra polímeros e monômeros de um lado e sai boneca Barbie de plástico do outro. Entra couro curtido de um lado e sai bola de futebol do outro. Simples assim.

Mas também sabemos desde sempre que a história da riqueza dos homens se fez com base no princípio mais elementar da economia: o lucro! Que é a diferença entre o dinheiro investido para fabricar o produto e a grana arrecadada com a venda. Igualmente simples e essencial para o funcionamento do mundo capitalista. E socialista também, senão China não fabricaria tênis e Cuba não seria o maior produtor de charutos do mundo.

Simples, gasta-se x para produzir um produto e vende-se por 1,5 x ou 2 x para reverter a diferença em lucro.

Curiosamente, desde que o mundo capitalista existe empresários têm uma certa vergonha em admitir isso. Que vivem de lucro. E que ficarão mais vivos, belos e perfumados quanto maior for esse lucro. Não sei onde está a vergonha em admitir isso publicamente. Os bancos, por exemplo, gastam centenas de milhares de dólares em propaganda tentando passar a idéia de que vendem felicidade por meio da compra de bens, quando na verdade o que desejam realmente é aumentar cada vez mais o lucro. E olha que mercado financeiro representa o maior lucro da Economia atual.

Diante dessa mais do que natural e simples observação não entendo qual a indignação de algumas pessoas quando se vêem diante de uma clara situação de aumento nas margens de lucro. Toda fábrica, desde clipe de papel até avião só existem porque querem aumentar as margens de lucro. Ou alguém já viu o diretor de uma multinacional aparecer em público afirmando do alto do púlpito: “Decidimos diminuir em 10% a nossa margem de lucro em 2010”. Isso não existe. Lucro é tão vital para uma empresa quanto o sal da comida.

Provavelmente o Brasil é onde se praticam as maiores margens de lucro do planeta. Sei bem disso porque passei pela experiência de produtor e vi a naturalidade com que comerciantes aplicavam 100% de margem nos produtos sem a menor cerimônia. Esse papo de que nossos carros e motos são caros por causa da incidência de impostos é bem conversa mole pra boi dormir, porque mesmo retirando a carga tributária ainda dão um enorme lucro. Parte desse lucro vem da oferta cada vez maior de mão de obra barata. Não é à toa que surgem pólos industriais em regiões como Camaçari (BA), Manaus (AM), São José dos Pinhais (PR), Taubaté (SP) e outras. Além de correr atrás de valiosos incentivos fiscais, as grandes empresas querem mão de obra qualificada e mais barata do que no tradicional grande ABC em São Paulo.

Nessa busca mundial por aumento nas margens de lucro surgiu a necessidade de repensar a logística da produção em escala. Algumas fábricas deixaram de transformar matéria prima em produto final e passaram a comprar pedaços de produto, montar e vender. Daí a origem do termo “montadora” para classificar algumas fábricas. Como essas peças precisam ser fabricadas por outras empresas, a roda da produção não pára.

Ingenuidade – Nessa busca por lucros ficou evidente que um fator determinante para aumentar as margens seria gastar cada vez menos para a produção, uma vez que a competitividade impede o aumento exagerado do preço. O sonho da alta casta industrial seria voltarmos à escravidão, assim bastaria um feitor e um chicote para tocar a produção.

A pressão por condições mais dignas de produção foi um dos fatores que mais forçou o aumento no custo de produção, deixando de lado a elevação absurdamente exagerada nos salários de alguns executivos de alto escalão. Para manter – e aumentar – as margens de lucro foi fundamental buscar a redução no custo da mão de obra e aí entra em cena o que se convencionou eticamente chamar de “países emergentes”.

O Brasil já fez o papel de “país emergente” nos anos 50, quando a indústria automobilística mundial aportou aqui com enormes fábricas, oferecendo trabalho e progresso à população. As pioneiras aproveitaram bem a mão de obra barata e “limpinha”, só não contavam que a forte imigração de europeus, sobretudo italianos, no pós-guerra trouxesse na bagagem a idéia do sindicalismo.

Chegamos aos anos 80 e o mundo descobriu uma fonte de mão de obra baratíssima, com a vantagem de não fazer a menor idéia do que vem a ser um sindicato. E mais: com mais de um bilhão de pessoas aceitando qualquer coisa por centavos de dólar. Essa é a China, que está se transformando rapidamente no maior pólo industrial do planeta. E sem as “frescuras” do mundo ocidental como 13º salário, férias, poluição, fundo de garantia etc.

Hoje é praticamente impossível comprar um tênis Reebok, Nike ou Adidas que não seja feito na China. Tive a chance de entrar em uma loja de produtos esportivos em Nova York e sair de lá frustrado por não achar um produto “made in USA”. Nem as bandeiras americanas são feitas nos Estados Unidos!

Aí, chegamos ao mercado de motos – nossa praia – e percebemos um inexplicável preconceito com relação a tudo que vem da China. Ou melhor, a tudo que não venha do Japão, EUA e Europa. É o maior atestado de alienação que alguém pode dar.

Na China existem pelo menos uma centena de fábricas de motos e scooters. Algumas delas são fornecedoras exclusivas das grandes marcas japonesas. Sim, existem Honda, Yamaha, Suzuki e Kawasaki feitas na China. Tem muito brasileiro rodando com moto ou scooter chinês pensando que é japonês! E esses mesmos clientes dessas motos torcem o nariz quando vê ao lado outro scooter Made in China. Pior é saber que tem marca no Brasil que anuncia seu produto como “japonês feito no Brasil” e ele vem da China mesmo!

Não entendo o motivo dessa preocupação em esconder a origem. São ótimos produtos, de qualidade mais do que comprovada porque essas grandes marcas japonesas implantaram um padrão de qualidade excelente dentro das plantas industriais chinesas. Em outras palavras, os chineses fornecem a mão de obra mais barata, mas a administração industrial foi criada e é gerenciada pelos japoneses. A mesma metodologia que BMW aplica para produzir partes da F 650 GS na China.

A origem desse preconceito está no berço da industrialização chinesa. No livro “Henfil na China” o sociólogo Henrique Figueiredo Filho (Henfil) relata como os chineses se tornaram os grandes copiadores de produtos industrializados. Organizavam feiras na China e convidavam as grandes empresas de todo mundo. Quando a feira terminava eles trancavam o galpão e só liberavam as mercadorias depois de alguns dias. Na hora de retirar os equipamentos, os estrangeiros descobriam, perplexos, que estava tudo desmontado!

BMW by Dafra – Algumas pessoas ingênuas pregam o boicote aos produtos chineses alegando a falta de uma política trabalhista, digamos, mais humanista. A ingenuidade vem do desconhecimento, porque só quem vive aquela realidade pode julgar se 50 dólares por mês é um insulto ou a diferença entre viver ou morrer. E mais: não precisa dar a volta no planeta para se indignar. Quem deixa de consumir produtos chineses por motivos humanitários deveria abandonar definitivamente o álcool como combustível, porque aqui mesmo, no interior de São Paulo, muitas famílias trabalham literalmente até a exaustão no plantio, cultivo e corte da cana pelos mesmo US$ 50 por mês. Sem falar no trabalho infantil.

Então de onde vem essa bronca com relação às motos e scooters chinesas? Isso é fácil de explicar: vem de empresários aproveitadores que viram o crescimento exponencial do mercado de motos, sobretudo no Norte/Nordeste e foram na China em busca de produtos baratos, sem a devida preocupação com qualidade e muito menos a responsabilidade na assistência técnica. A busca pelo lucro superou a preocupação em contribuir efetivamente com a implantação de uma política industrial.

De todas as empresas que entraram nessa onda, a que me parece mais disposta a se tornar verdadeiramente uma indústria é a Dafra (e note que é uma opinião PESSOAL). Alicerçada no grupo Itavema, um dos maiores conglomerados econômicos do País, com larga experiência no mercado automobilístico, a Dafra ainda está alguns anos-luz de apresentar um produto comparável aos genuinamente brasileiros modelos da Honda e Yamaha da mesma categoria. Mas percebe-se o esforço em melhorar o produto.

Não é à toa que a BMW foi buscar parceria com a Dafra para montar a G 650 GS na Zona Franca de Manaus. Aliás, bastou ventilar essa notícia para que os membros de fóruns da Internet revelasse desdém com relação ao produto só por ser “fabricado” (sic) pela Dafra! Na minha humilde opinião – expressada diretamente à diretoria da BMW – pode ter sido um erro estratégico associar a marca alemã ao nome Dafra e não ao nome Grupo Itavema. Creio que no campo psicológico do mercado, o nome Itavema sofreria menos refração do que Dafra, mas… eu não estou lá dentro para levantar esses motivos.

Desdenhar a G 650 GS só por ser montada em Manaus é uma grande prova de burrice, na falta de uma palavra mais educada. Porque ela será MONTADA e não fabricada. As peças virão da Alemanha, Áustria, Itália e China e tudo isso será encaixado, aparafusado, soldado e milimetricamente gabaritado por técnicos da Dafra, treinados na BMW alemã. E mesmo que fosse fabricada em Manaus teria o padrão de qualidade da marca bávara porque só quem convive com alemão sabe o quanto são chatos (no bom sentido) com os detalhes.

(Aprende: Coreano não é chinês! Foto: Tite)

Xing ling é a mãe – Pior do que classificar todo produto chinês como segunda categoria é chamar tudo que vem da Ásia – menos do Japão – de chinês. Quando os experientes Sérgio Bessa e Milton Benite trouxeram as motos da coreana Hyosung pro Brasil eu fui um dos primeiros jornalistas a testar um modelo de 125 cc. Com estilo custom, fiquei impressionado com o alto nível de acabamento e qualidade geral. A Coréia é um país democrático, com economia estável e tem grandes indústrias como Kia, Hyundai e a gigantesca Hyosung. E tem gente que chama os produtos dessa marca (hoje vendidos com a marca Kasinski) de “Xing ling”, numa irônica alusão aos produtos chineses.

Lembro que nos anos 80 as pessoas voltavam indignadas dos Estados Unidos porque ao anunciar que eram brasileiros o americano comentava: “ah, que legal, eu tenho um primo que mora lá, em Buenos Aires!”. O brasileiro chegava aqui esbravejando: “povo burro da p***, acha que Buenos Aires é a capital do Brasil”.

E o que dizer de quem chama um produto coreano de chinês? Para um coreano deve soar como se dissesse que Pelé é argentino! O mesmo cuidado deve ser tomado com relação a outros países como Taiwan e Índia. Hoje a Índia já produz motos com bom padrão de qualidade e algumas delas devem aportar por aqui.

Repito, o que “fritou” as marchas chinesas no Brasil foi a ganância do empresariado brasileiro que investiu na ingenuidade do consumidor em busca de preço baixo. É fácil atrair um leigo com uma moto bonita, com freio a disco, uma gambiarra chamada de “ABS mecânico”, conta-giros, indicador digital de marchas, rodas de liga leve, mas que enferruja depois de dois meses ou tem os componentes plásticos trincados depois de poucos milhares de quilômetros. Sempre que ouço alguém comentar “as motos importadas da China estão vendendo bem!” completo com uma comprovação estatística: “sim, pode ser, mas quantos desses motociclistas estão comprando a primeira moto de suas vidas? E quantos comprarão uma segunda moto dessa marca?”.

Até hoje não conheci UM motociclista que tivesse comprado uma segunda moto dessas marcas oportunistas. Pelo contrário, conheço vários que pularam para as brasileiras ou coreanas.

Conforme expliquei anteriormente, existem ótimos produtos feitos na China, capazes de concorrer em igualdade com japoneses e europeus. Mas os empresários brasileiros que viram no mercado brasileiro de moto uma oportunidade de lucro rápido não foram atrás destes produtos. Foram em busca de margens de lucro estratosféricas, sem a devida relevância ao pós-venda. Cheguei a presenciar um dos maiores absurdos da minha extensa carreira de 30 anos em uma apresentação dos novos modelos chineses da Kasinski na época ainda do Abrahão. Em plena conferência de imprensa uma senhora, responsável pelo pós-venda, afirmou, sem qualquer cerimônia, que os consumidores não precisavam se preocupar com a reposição de peças pois eram  todas compatíveis com Honda e Yamaha!!! Olhei para o lado, vi o mesmo ar estupefato dos colegas jornalistas e comentei com um deles: “Equivale dizer que eles apenas trarão as motos, mas responsabilidade pela reposição de peças é do concorrente!”. Felizmente a nova administração da marca parece ser um pouco mais séria.

Pós-venda deveria ser o motivo número um de rejeição a estes produtos. Já tive problemas com pós-venda das marcas mais tradicionais do mercado, imagine uma empresa que precisa ocupar espaço no contêiner com uma montanha de motos, mas não traz nem uma roda sequer porque a do concorrente é igual!!!

É bom que fique bem claro: ser chinês não é sinônimo de baixa qualidade nem trabalho escravo. As grandes marcas já começaram a praticar uma política de RH mais sensata. É ainda muito embrionária, em um país totalitário. Mas da mesma forma que no nosso democrático Brasil temos trabalho escravo nas lavouras em pleno século 21, não vai ser fácil abrir tantos benefícios aos mais de um bilhão de chineses.

O que não pode é ficar com essa frescura de “queimar” um produto só por ter partes feitas na China, Índia, Coréia, Taiwan ou Paquistão. Alguém em plena consciência e maturidade acredita fielmente que os melhores carros do mundo são feitos com peças 100% fabricadas em seus países de origem?

Sobre Geraldo TITE Simões

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Um comentário

  1. Zé Mauricio

    Marcas tradicionais Norte Americanas, Japonesas, Européias, fabricadas sob controle na China, tudo bem. Mas marca chinesa? Desculpe, mas ainda falta muito tempo para aparecer algo de boa qualidade, que ao menos se equipare!
    Made in China? Só com marca de fora de lá!

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