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Oi, eu vou ali morrer e já volto

De uns tempos pra cá me transformei naquilo que os jornalistas chamam de “fonte”, um sujeito que tem as respostas para determinadas perguntas. Minha especialidade com segurança de motociclista se tornou uma fonte para colegas da imprensa. Dias atrás recebi a ligação de uma jornalista de um grande veículo de comunicação (prefiro omitir nomes). A pergunta veio em uma semana especialmente dramática para os paulistanos, porque foram dois acidentes fatais por dia, engrossando as estatísticas macabras. Ela perguntou:

– Por que morrem tantos motociclistas? (ou algo parecido com isso)

Antes de responder pensei naquelas centenas de vezes que discursei sobre a educação de trânsito, fiscalização, faixas segregadas, falta de formação, baixo nível de escolaridade das vítimas etc etc e mais etc!

Só que cansei de divagar sobre esse assunto e dei a resposta que sempre quis, mas nunca tive coragem:

– Morrem porque querem!

Diante do susto natural da jornalista, repeti a resposta e ela reforçou que seria uma matéria publicada, se eu não queria rever a resposta. Respondi que não, que poderia deixar inclusive entre parênteses, citando meu nome como fonte, tipo:

O jornalista e instrutor Geraldo Simões, 51 anos, afirmou à reportagem que os motociclistas de São Paulo morrem “porque querem”.

Bom, a matéria saiu sem a minha declaração… porque a coragem que tive para assumir aquilo que autoridades tentam disfarçar, a colega não teve para publicar. Assim, as argumentações foram todas aquelas que todo mundo sabe na ponta da língua, mas que são todas um enorme disfarce para a mais óbvia das realidades: estes motociclistas morrem porque querem e ponto final.

Claro que há os acidentes, que devem ser classificados como tal quando nenhum dos agentes envolvidos teve a intenção de provocar. Mas acidentes são raros em São Paulo. O mais comum é a mais elementar das causas: a negligência, associada à prepotência, atributos de personalidade que imperam nos motoristas e motociclistas de SP. Se há negligência está clara a intenção por trás da ação.

Ah, mas o motorista mudou de faixa sem olhar! Sim, mas o motociclista estava rodando a 90 km/h no corredor com uma moto sem freio, com pneus carecas e de capacete desafivelado. Isto pode ser caracterizado como acidente? O choque talvez, mas a conseqüência não! O choque foi um acidente, mas o óbito foi causado por pura negligência.

Diariamente eu levo fechadas de motoristas nas mais criativas variações. Tem fechada pela esquerda, pela direita e até dos dois lados ao mesmo tempo. Só que rodo a uma velocidade compatível com os outros veículos, minha moto tem freios eficientes e pneus novos. Porque eu não quero me estabacar! E se cair meu capacete é novo, meu casaco é estruturado e uso calça com reforço.

Non ducor, duco

O lema da cidade de São Paulo expressa uma atitude tão tipicamente de motociclistas e motoristas paulistanos que soa como profecia. Não sou conduzido, conduzo! Ninguém me diz onde, nem como devo conduzir, mas conduzo à minha maneira, sem regras, sem sensatez, nem ordem. Minha lei é meu umbigo!

Com raríssimas exceções – mas bota raro nisso, tipo que precisa lente de aumento pra encontrar – a vítima fatal de um acidente de moto foi totalmente inocente. Casos como linha de pipa com cerol, caminhão sem freio na descida, bêbado que fura o semáforo são raros, mas adquirem muito destaque pelo dolo envolvido.

Só que os acidentes fatais que são contabilizados – e que vejo, porque estou diariamente nas ruas – são provocados por absoluta negligência do motociclista. Daí meu desabafo do “morre porque quer!”. Porque quer rodar no corredor a 90 km/h. Porque quer rodar com pneu careca. Porque quer usar um capacete de R$ 50 desafivelado. Porque quer rodar na calçada a 50 km/h. Porque quer pular o canteiro central de uma grande avenida.

Resumindo, morrem porque querem!

Soma-se esta conduta ao triste fato de as vítimas fatais se encontrarem na maioria entre 18 e 25 anos e temos mais uma trágica coincidência estatística. A adolescência, período que vai dos 12 aos 18 anos tem como característica a prepotência, comportamento que faz o indivíduo acreditar que as coisas ruins só acontecem com os outros. Como a maioria das vítimas são do sexo masculino e a adolescência do homem vai até os 25 anos (ou 50, segundo as mulheres!), isso explica boa parte destas vítimas.

Basta conferir qual a idade de alistamento militar para entender como o Estado pode aproveitar a prepotência a seu favor. Na faixa dos 18 aos 25 anos o soldado vai pro front achando que nada de ruim vai acontecer com ele, até um projétil .50 atravessar o cabeção.

Portanto, temos a fórmula ideal para que tudo de errado dê certo: sensação de prepotência + negligência = morte súbita!

Ou seja, morrem porque querem!

E querem saber? Não há a menor chance de esta situação melhorar. Pelo contrário, a tendência é piorar com a entrada cada vez maior de novos motociclistas. Mas também não pense que esta situação é limitada aos motoboys ou fretista.

É bom esclarecer que existem os motoboys e existe o comportamento motoboy. O que os especialistas chamam de arquétipo, uma repetição do mesmo comportamento. Tem donos de motos esportivas, BMW caríssimas que agem da mesma forma e que depois de um acidente fatal é transformado em vítima.

Os rachas na estrada, os atalhos pela calçada, a alta velocidade nos corredores mostram que os “playboys” também morrem porque querem!

Responda sinceramente: se fosse chamado pelas forças armadas para defender seu país do front de batalha, de fuzil na mão você iria? Eu não! Não quero morrer tão cedo nem entrar no fogo cruzado! Por isso não existe exército de soldados quarentões. A gente sabe que as coisas ruins também acontecem conosco!

by Geraldo TITE Simões
Curso SpeedMaster
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Sobre Geraldo TITE Simões

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14 comentários

  1. Realmente tem muita gente negligente no trânsito, mas tem muito motorista dirigindo com uma mão só, muita gente economizando seta e retrovisor, além de abusar da escuridão dos filmes no vidros.

  2. Thiago Pagonha

    Sou apaixonado por motos, ando há uns 6 anos.

    Concordo com quase tudo. Mas não é o fato de andar à 90km/h no corredor que o fará ser imprudente. Já vi motoqueiros que adam à 40km/h e causam acidentes pq não sabem pilotar.

    Eu corro, adoro velocidade, mas tem que saber correr, como correr e onde pode correr. Tem é que saber andar de moto, ter noção do que acontece a sua volta, prever as situações, saber usar os freios e as marchas corretamente, usar a direção defensiva…ter aquela malícia na direção, etc.

    O problema é que muitos motoqueiros não sabem dirigir, por isso morrem.

    Pode sim andar à 100km/h no corredor, mas tem q saber andar né ;P

  3. Alan xavier

    Concordo plenamente, essa é a realidade, não adianta culpar os outros. depende de nós mudarmos isso.

  4. Comprei minha primeira moto a 5 meses atras(uma Burgman 125AN 2007) , e já entrei de cara na confusão do trânsito em Floripa. No começo com muito medo, mas não demorou para que começa-se a ser imprudente, o resultado veio rápido… cai sozinho a 40km/h na sujeira de uma curva, nada grave. Mas serviu para me conscientizar que deveria ser mais prudente. Comprei jaqueta apropriada com as devidas proteções, luvas, e troquei o capacete de vagabundinho por um LS2, mantenho a moto revisada e principalmente… ando na linha e sem exageros. Sua matéria só veio reforçar o meu pensamento! Valeu pelo texto vai me ajudou muito.

  5. Não concordo ,porque o principal problema esta nas pessoas que concordam com tudo,e não fazem nada para mudar uma ideia velha para uma ideia nova; Auto Escola deveria ser uma Escola de Formacão de Motoristas e Motociclistas e não oque é hoje, um lugar onde se adquire uma CARTEIRA DE MOTORISTA facil. Melhorar oque esta ruim é fazer ruim-melhor e isso não resolve o problema.As ruas e estradas de hoje são antiquadas, precisamos fazer como as potencias ORIENTAIS “TUDO NOVO” e moderno.

  6. Tite,

    você retratou de forma simples e fiél o que acontece no trânsito de São Paulo, tenho moto ando com ela quase que diariamente, viajo muito e todos os pontos abordados no texto acima retrata o que os retardados dos motoboys e playboys fazem no trãnsito e estrada!!
    Tomei a liberdade de divulgar seu texto em um forum (www.forumhd.com.br)que participo incluíndo autoria e fonte do mesmo..

    Lisandro Pisano

    parabéns!!

  7. Rafael Freitas

    Concordo plenamente.
    Estou cansados de ouvir as pessoas dizerem: “Ele morreu por culpa da moto”.
    Aff…
    Ele morreu porque ele quis, porque furou sinais, anda a 80km/h em ruas que a velocidade maxima é 30km/h, etc.
    A motocicleta nao tem vida propria e nao tem o poder de matar ninguem.
    Logicamente que existem exceçoes como foi citado no artigo.
    Parabens.

  8. Muito boa matéria, moro na Granja Vianna próximo a Raposo Tavares e situações de risco são freqüentemente observadas por mim.

    Parabéns.

    Roberto Severo

  9. Parabens Grande Tite

    E isso ai ! Tambem utilizo minha moto todos os dias para trabalhar… sabe como e, depois dos 40, continuo vestindo aquela calorenta jaqueta de cordura, aquela quentissima luva de couro, aquela desbotada bota de seguranca, o reluzente capacete importado novo e claro, atrapalhando a vida daqueles que utilizam os corredores como pista de decolagem.
    Sim, atrapalhamos diariamente pois andamos na mesma velocidade do fluxo de transito.Somos um saco !!!
    Somos xingados pela novissima geracao de super motociclistas qua ai estao.
    E ontem na Av. Consolacao, presenciei do meu lado um destes, alicatar o freio dianteiro numa excessiva velocidade !!! Resultado: Stryke ! Um tombo anunciado, foi parar debaixo de um carro ! Ele contava com toda sua astucia e acreditava mesmo que poderia parar uma moto naquela velocidade. Ha, nem preciso dizer que de equipamento de seguranca era apenas um capacete de plastico ! Vamos fazer uma materia a respeito do pertinete assunto na tv ? Aguardo Abs
    Dinno

  10. Bom dia Tite,
    MOro no ES e posso lhe afirmar que por aqui motociclista também morre “porque quer” ando pelas ruas de vitória todos os dias na garrupa do meu irmão e vejo que os motocilcistas não tem paciencia no trÂnsito e acham que estão pilotando um avião ao inves de uma moto.
    Sobre o que nossa amiga Jacqueline citou, eu também acho um absurdo as aulas que temos nas auto escolas. Quem tira carteira de moto não sabe nunca pilotar, afinal durantes todas as aulas o máximo que se faz e passar a marcha uma vez.
    Eu tirei carteia a mais de um ano e até hoje não piloto ainda estou com receio tenho que fazer mais aulas para sair por ai enfrentando o trãnsito, pena que nem todos penasam como a Jacque e eu.

    Grande abraço e meus parabéns pelas suas palavras.

  11. Tite, acho que isso deveria virar slogan.

    Estou em cima de uma moto desde os 14 anos. Tive meu momento James Bond na adolescência e me safei. Nunca mais. Ando sozinho, detesto passeios em grupo cujos elementos não saíram da puberdade e com suas respectivas motos emulam aquela brincadeira de moleque para saber quem tem a manopla maior. De fato, motociclista tranqueira vai de Biz e vai de BMW.
    Acredito até que uma mula sem cabeça que alopra em Morungaba é pior que o motoboy que esculhamba na marginal. Estará o condutor de sua 1000cc desesperado levando um documento para autenticar no cartório?
    A estupidez é proporcional a cilindrada.
    Curioso é que esse mesmo jaspion, que se vacilar botou um sistema Ohlins até na própria esposa, quando encara Interlagos vira seus vergonhosos 2.10, tempo de batalhão do meio de Twister.

    E depois de tanto tempo sobre uma moto, depois do susto adolescente hormonal, o único incidente que eu tive foi freiar em cima de uma casca de abóbora. Apenas a pontinha do metatarso e mais nada.

    Depois disso comprei um capacete alemão, uma carapaça de tartaruga e luvas de motoGP. Tenho medo dos vegetais, como certos motociclistas e motoristas e também temo aqueles vegetais mais inteligentes, que a gente cozinha com camarão.

    Saúde, sorte e vida longa

  12. Olha, Tite… Você disse tudo que eu queria dizer em público mas não sei se teriam coragem de publicar. Bate nessa tecla também. Um dia desses um amigo caiu e se ralou todo. Todo mundo morrendo de pena… Detalhe: alta velocidade, tinha bebido e estava sem equipamento (apenas capacete)… Quando eu disse: “Bem feito, espero que tenha a prendido da lição. Talvez não tenha um segunda chance se continuar assim…” Ficou todo mundo olhando pra mim com cara de espanto.

  13. Flávia Codonho

    PARABÉNS!!!! Li através do link da Jacqueline Hochberg, e A D O R E I ! ! ! ! !
    Como motociclista, tb tenho visto muita imprudência nas ruas, absurdos, e as vezes presencio falta de amor à vida própria e alheia!.
    Os motoboys, sempre indignados porque NINGUÉM sai da frente, ( nas ruas que acham eles que compraram!)e os motoristas indignados pela falta de respeito e acabam por afrontar a todos. Palavras bem colocadas.Parabéns. Abraços.

  14. Tite,

    Concordo em gênero, número e grau!

    Sou uma motociclista novata e vi o “treinamento” dado na moto-escola: nunca use o freio dianteiro e não precisa aprender a mudar de marcha foi o que eu ouvi na 1ª “aula”! Como é que pode?

    Como também sou “quarentona” decidi buscar ajudar e fiz um curso de pilotagem defensiva na Honda e um de baixa velocidade com o Baccaro. Nem sou capaz de dizer o quanto isso tudo me ajudou.

    Sinceramente, não dá pra entender o motivo do número de acidentes em SP não ser ainda maior!

    Parabéns pelo texto!

    []s,

    Jacqueline Hochberg

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