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Trânsito, irracionalidade e silêncio oficial

A brutalidade irracional do trânsito de São Paulo fez mais uma vítima. Um dos principais executivos da indústria paulista, que teria todos os meios a sua disposição para se deslocar apenas de carro, ou até mesmo de helicóptero, como fazem tantos empresários desta cidade, foi assassinado sobre uma bicicleta.

Em uma cidade como a nossa, em que o trânsito mata 50 ciclistas por ano, não surpreende mais esse descaso com a vida.

Diariamente, veículos ocupados caprichosamente apenas por seu condutor travam uma batalha covarde com pedestres e ciclistas. Sentados dentro de suas armaduras, cada vez maiores e ameaçadoras, investem contra seres humanos desarmados, em faróis, entradas de estacionamentos de shoppings, portas de escolas e tantos outros locais onde se exibe infinita estupidez. E o pior: julgam ter direito a todo o espaço disponível da cidade; afinal, a cidade foi e continua sendo cada vez mais alterada em favor deles. Ruas se alargam, calçadas se estreitam, árvores são derrubadas: tudo pelo bem dos veículos que precisam transitar por uma cidade que, sem se preocupar com o transporte coletivo – pelo menos com o de qualidade -, investe em mais ruas, avenidas e extinção da vida.

É curioso observar como os motoristas acreditam ser natural avançar contra os cidadãos em faróis abertos ou fechados, faixas de pedestres ou simplesmente para se divertirem diante de pessoas que não têm à sua disposição um monte de lata de uma tonelada. É como se tivessem um direito divino sobre as vias da cidade, onde pedestres são obstáculos que não podem atrapalhar o livre fluxo dos carros.

Prefeito após prefeito, nada tem sido feito para alterar esse quadro. Ciclovias não existem, ou existem como piada. Alguém já observou como têm crescido as ciclovias de São Paulo? Faria Lima, Berrini, JK, Hélio Pelegrino… Será que o morador dessas regiões deixará o carro em casa para se deslocar para o trabalho de bicicleta? As ciclovias só podem ser utilizadas por algumas horas aos domingos nessas regiões nobres da cidade porque obviamente o morador do Itaim realmente PRECISA de carro para se deslocar até seu trabalho na Paulista ou nos Jardins, percurso que poderia fazer a pé em 20 minutos, dando grande contribuição para a sua saúde e a da cidade.

Uma ciclovia desse tipo não serve ao trabalhador comum; serve ao lazer do paulistano dessas regiões.

Acompanhando cidades como Paris, que adotou a bicicleta como uma alternativa para percursos curtos, os bicicletários paulistanos limitam-se aos 45 km de ciclovias de São Paulo. Já Bogotá, na Colômbia, tem 121 km.

Sempre que tragédias como essa acontecem em nossa cidade, autoridades mandam flores, dão apoio à família e lançam palavras que se diluem em um mar de promessas. Até que se concretizem, quantos ciclistas não chegarão a seu destino?

Por Marcelo Rocha, que é advogado formado pela Universidade de São Paulo, especializado em gestão pública e estratégica e em relações internacionais. É presidente da Associação Horizontes (www.ah.org.br), entidade sem fins lucrativos que visa promover sustentabilidade, cidadania, inclusão social e geração de trabalho e renda por meio da educação

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fonte : Ana Carolina Esmeraldo / Ex-Libris Comunicação Integrada

Sobre * Equipe MOTONAUTA

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Um comentário

  1. É triste como o trânsito cresce de forma desordenada nas cidades brasileiras e com isso crescem também os acidentes e mortes. Me questiono se a falta de interesse dos nossos governos em investimentos para transportes públicos e em infra-estrutura para meios de transporte como a bicicleta, não tem a ver com as grandes montadoras de automóveis que só pensam em aumentar as vendas e obter lucros cada vez maiores (infelizmente nossa economia se tornou refém delas). Também a máfia de postos de combustível, que lucra com a enorme quantidade de carros e transito, que somente contribuem para o consumo excessivo da gasolina, etanol e afins.
    A total falta de compromisso com a formação de condutores, sejam de duas ou quatro rodas que abastecem a indústria de multas que depende de motoristas mal educados e desconhecedores das leis para sua absurda arrecadação.
    Ah.. também temos as concessionárias de pedágio que lucram absurdamente com o número de automóveis circulantes.
    Tudo isso citando apenas nosso trânsito. Enfim.. entra governo, sai governo e a única coisa evidente é o interesse no dinheiro que entrará nas contas dos poderosos que comandam nosso país.
    Felizmente ainda temos pessoas que querem e contribuem para uma melhora no bem estar comum. Anceio pelo dia em que este número será maior que o de mal feitores.
    Abraços!!

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